Leia a história (Prólogo e 1º Capítulo)
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P R Ó L O G O
Lisboa, Julho de 2012.
Peter Frampton entrou na Brasileira do Chiado para a segunda bica do dia. Líder máximo das Frampton Industries, precisara de se deslocar a Lisboa para resolver alguns problemas relacionados com a filial portuguesa. Já não era a primeira vez. Como adorava Portugal, aproveitava qualquer desculpa para aqui se deslocar pessoalmente. Com qualquer outro país, mandaria um executivo, mas o certo é que Peter estava meio enfeitiçado por aquele povo original, algo tristonho, mas muito simpático, e seu bonito país. Não sabia bem explicar. É certo que Lisboa era uma cidade lindíssima. Só que Paris, ou Roma, também o eram. No entanto, raramente se deslocava àqueles países, mas visitava Portugal todos os anos. Sem saber bem porquê. Só sabia que não era o único caso. Vários amigos seus que tinham visitado o país acabaram por tornar-se visitas regulares. Parecia que um qualquer magnetismo os fazia sempre voltar.
Um dos motivos pelos quais ia em pessoa era para poder reabastecer-se de vinho do Porto. Se os vinhos portugueses eram dos melhores do mundo, o vinho do Porto era único. Quando, já há alguns anos, provara o precioso néctar pela primeira vez, ficara imediatamente seduzido por um sabor… como explicar, algo divino. Desde então, não dispensava um cálice depois das refeições. E, claro, aproveitava as idas a Lisboa para comprar várias caixas dos melhores vintages.
Mal entrou, reparou imediatamente num homem sentado a um canto. Com ar taciturno, nitidamente alcoolizado, murmurava palavras ininteligíveis e fumava furiosamente. Peter, habituado que estava a avaliar o seu semelhante com um simples olhar, percebeu logo não estar diante de um vulgar bêbado. Quando entrou, o outro levantou a custo a cabeça e o seu olhar penetrante cruzou-se por um instante com o dele. Era hipnótico, intoxicante, e incomodou-o profundamente. Olhos vítreos, de um negro absoluto, sussurraram-lhe ao ouvido palavras de apelo, pinceladas aqui e ali de um orgulho ancestral. De repente, sem aviso prévio, o bizarro personagem levantou bruscamente a cabeça e, acto contínuo, ergueu o cálice de bagaço em jeito de brinde, ao mesmo tempo que lhe fazia sinal para se sentar à mesa. Incapaz de pensar, Peter sentou-se, mecanicamente. E, num ápice, o universo confinava-se àquela mesa, a si, mudo de espanto, e ao bêbado estranhíssimo sentado à sua frente com ar trocista.
Foi então que ele falou. A voz soou cava e profunda, como numa cena esotérica de um qualquer filme de série B.
— Caro senhor, encontro-me numa situação lamentável. Contudo... desculpe, o senhor não é português, pois não? — Peter fez que não com a cabeça. — Pois, bem me parecia, mas, pelos vistos, percebe português? — E Peter, ainda incapaz de falar, acenou um «mais ou menos». — O melhor é continuarmos em inglês, não acha? — O milionário concordou com a cabeça.
— Antes de mais, deixe que me apresente: Júlio Quental, muito prazer — disse o inventor num inglês bem razoável, enquanto estendia a mão.
— Frampton. Peter Frampton, muito prazer.
— O quê? O Peter Frampton, das Frampton Industries?
— Olhe, o da música é que não sou, de certeza.
— Mas nesse caso os deuses estão comigo. Era difícil encontrar alguém mais adequado para apresentar o meu invento. Vamos então aos factos: há coisa de seis meses, terminei os planos de uma máquina que pode mudar a sociedade. Apressei-me a registar a patente mas agora não tenho dinheiro para produzir o protótipo. Este invento pode tornar-me a mim, que estou falido, imensamente rico; e ao senhor também, se aceitar o meu desafio, é claro. Não, eu sei que tenho todo o ar disso, mas não estou maluco.
Peter reparou pela primeira vez no aspecto bizarro do desconhecido: tinha cerca de trinta anos. Calçava botas da tropa, vestia calças de ganga pretas com uma T-shirt da mesma cor e, apesar de ser Verão, uma gabardina cinzenta à Colombo, só que bastante mais sebenta e encardida que a do famoso detective. Não era careca, mas tinha o cabelo rapado com esmero. O nariz adunco dava-lhe um certo ar de ave de rapina. Sem dúvida, uma estranha figura. E falava sem cessar, como se receasse que, à primeira pausa, ele se levantasse e saísse porta fora.
— Não, garanto-lhe que não estou maluco. Bem vê, esta máquina pode resolver de uma vez por todas os problemas de consciência dos fumadores. Está a ver, o maior problema de um fumador, para além, como é óbvio, do grande mal que faz a si próprio, é o mal e incómodo que provoca aos outros à sua volta. Eu próprio, apesar de completamente agarrado, evito acender cigarros em sítios onde, mesmo não sendo proibido, sei que vou incomodar terceiros. Só é pena que nem todos ajam assim. É uma questão de hábito, penso eu. Aliás, a maioria das leis restritivas do fumo, nas quais os EUA são campeões, têm por base os direitos dos chamados «fumadores passivos». E o senhor, sendo americano, conhece essa realidade bem melhor que eu. Ora bem, com a minha máquina este tipo de problemas desaparecia. E porquê?, pergunta-me o senhor. É que com este invento, ao qual dei o nome de «Máquina de Fumar», sempre que alguém fumar um cigarro, mesmo numa sala fechada, em vez de poluir o ar este tornar-se-á mais puro. Parece impossível, não é? E, no entanto, é terrivelmente simples. Olhe, eu trago sempre comigo uma cópia do projecto. E como confio no senhor, vou-lho mostrar. — E o estranho personagem tirou com ares teatrais, de uma pasta mole de cabedal preto já muito puída, um maço de folhas A4 agrafadas, passando-o a Peter. As folhas estavam gastas e amarelecidas, com sinais de manuseio intensivo. Aqui e ali, notavam-se algumas manchas de café e queimadelas de cigarro.
Na primeira página, Peter viu pela primeira vez o esquema da máquina. Parecia uma daquelas caixas metálicas para charuto. De formato cilíndrico, tinha quinze centímetros de comprimento por quatro de diâmetro. Nas páginas seguintes estavam vários esquemas pormenorizados da máquina, bem como especificações técnicas. O milionário estava espantado. Era uma ideia de uma simplicidade atroz. Um autêntico ovo de Colombo. No entanto, reagiu com cautela. Os muitos anos à frente da empresa tinham-lhe ensinado a nunca mostrar entusiasmo diante de uma aparente boa ideia.
— Desculpe lá, mas já reparou por acaso que me está a pedir para investir... o quê...? Uns quatrocentos ou quinhentos mil dólares, no mínimo, num protótipo que provavelmente nunca irá funcionar?
— Olhe, deixe-me dizer-lhe uma coisa: você é a minha última oportunidade. Já tinha decidido queimar os planos da máquina, quando você apareceu e pensei que tinha encontrado enfim um homem de visão. Afinal, é igual aos outros. Pensava eu que só os industriais portugueses tinham as vistas curtas! Merda para os planos da pólvora! Já nem os posso ver à minha frente! — Enquanto gritava, Júlio acendeu o isqueiro e chegou-o às folhas do projecto, que começaram logo a arder.
— Ok, está bem, eu dou-lhe uma oportunidade. Podemos…
— O quê? Dá-me uma oportunidade como? — disse o inventor atirando as folhas ao chão e saltando-lhes em cima para as apagar.
— Pois bem, a sua ideia parece-me boa, mas não tenho conhecimentos técnicos suficientes para avaliar a viabilidade do empreendimento. Estou no entanto na disposição de lhe marcar uma reunião com alguns dos meus melhores engenheiros. O que acha?
— Acho bem. Acho mesmo muito bem. Então, como é que combinamos?
— Olhe, eu vou estar em Lisboa até ao fim da semana. Fique com o meu cartão e ligue amanhã de manhã a marcar a entrevista.
— Está bem, eu ligo amanhã, sem falta. Até amanhã, foi um prazer conhecê-lo.
— Até amanhã, o prazer foi todo meu.
A apresentação foi um sucesso. Os engenheiros que, ao saberem o teor da reunião, se tinham mostrado extremamente cépticos, ficaram totalmente absorvidos pela brilhante apresentação de Quental. Estiveram reunidos mais de seis horas e no fim todas as dúvidas se tinham dissipado, ou pelo menos atenuado.
Só a capacidade das novas baterias a células de hidrogénio idealizadas por Quental lhes levantava algumas dúvidas. E não deixavam de ter alguma razão, pois como mais tarde se veio a verificar, essa foi a componente que mais problemas trouxe à equipa reunida pelas Frampton Industries para dar corpo ao projecto. Sob a chefia alucinada mas brilhante de Quental.
A ideia-base da «Máquina de Fumar» era tão simples como engenhosa. Quando alguém lhe apetecia um cigarro mas podia incomodar terceiros, pegava no dito e introduzia-o na máquina, deixando apenas o filtro à mostra. Depois, pressionava um botão que punha a ventoinha de sucção/extracção e o filtro a funcionar e, ao mesmo tempo, ligava o isqueiro interno. Podia então acender tranquilamente o cigarro. A partir daí, tinha apenas de se preocupar em expirar o fumo junto da grelha da frente. Testes com os primeiros protótipos comprovaram a teoria de Quental: o fumo era quase todo aspirado pela máquina, não chegando assim a poluir a atmosfera.
Uma vez dentro da máquina, as moléculas de fumo eram totalmente removidas pelo poderoso filtro electrónico de iões, sendo que este não só retirava o fumo, como também as poeiras e toda a espécie de impurezas que o ar pudesse conter. Todas essas partículas ficavam depositadas numa placa metálica especial, que devia ser limpa quando necessário. Na realidade, poder-se-ia dizer que o ar expelido pela ventoinha de sucção/extracção tinha a pureza da montanha. Porque tinha mesmo.
Frampton apercebeu-se imediatamente das enormes potencialidades sociais do invento. Doravante, os fumadores deixariam de ter problemas em fumar fosse onde fosse. Desde que munidos da «Máquina de Fumar», é claro. E todas as leis antitabaco baseadas nos direitos dos não fumadores teriam de ser revistas. No início, assim foi, na realidade. Muitos sítios onde era proibido fumar passaram a autorizá-lo, mediante o uso da máquina. A vida para os fumadores de todo o mundo ficou muito facilitada. Mas, nesse mesmo ano de 2012, surgiu também a ASLA – Anti Smoke League of America. Esta organização iniciou então uma grande cruzada antitabaco, conseguindo repor, em poucos anos, muitas das proibições anteriormente levantadas. Os seus esforços viriam a culminar na votação da 31.ª Emenda, que ilegalizaria totalmente o tabaco.
C A P Í T U L O I
Nova Iorque, Junho de 2029.
John Powers acordou bem-disposto. Era esse o grande dia. «Talvez seja hoje que fico para história do jornalismo», pensou enquanto retirava a máscara de barbear ao espelho da casa de banho. Era a última invenção do Quental. Punha-se ao deitar com um gel especial, tirava-se de manhã e era só passar a cara por água. A barba ficava impecável. Olhou-se com ar prazenteiro. Nem um grama de gordura. Aos trinta anos, apesar de gostar de comer bem e de não se privar de nada, estava em plena forma. Também, pudera. Levantava-se todos os dias às seis da manhã, com chuva ou sol, e corria dez kilometros.
De cabelo escuro encaracolado, tez morena, feições de miúdo e um eterno ar gaiato, John tinha algum sucesso entre as mulheres. Apesar do metro e oitenta bem medido, o seu olhar tinha uma candura tal que muitas o queriam proteger.
O avô materno, Jacinto Mealha, era português, filho de pescadores. Nascido no Algarve, a região mais turística de Portugal, famosa pelas lindas praias, tinha emigrado para os Estados Unidos ainda jovem, em busca do Sonho Americano. Como não tinha dinheiro para a viagem, arranjou emprego a bordo de um paquete de luxo, a servir à mesa. Aí, tomou-se de amores por uma criada de quarto dinamarquesa, com quem veio a casar. Dessa união nasceram seis rapazes e uma só rapariga: Jo Ann Mealha, mãe de John. Todos os anos prometia à mãe e a si mesmo ir visitar as origens. Mas por manifesta falta de tempo, nunca cumpria a promessa.
Apesar de jovem, tinha já granjeado na CNN uma reputação invejável. O seu programa, Just Politics, já era o mais visto da estação. Tinha fama de não conhecer impossíveis. De tal maneira que ganhou a alcunha de «John Super Powers». Por ter boa figura, já tinha sido convidado mais de uma vez para pivot do jornal das seis, mas recusara sempre. Do que ele gostava era do jornalismo de investigação e das entrevistas difíceis, com figuras públicas de nomeada. Dotado de um agudo espírito crítico, era sempre frontal e directo. Preparava as entrevistas ao pormenor, sabendo como ninguém pôr o dedo na ferida. Nunca permitia que as perguntas fossem contornadas, nem que tivesse de as repetir várias vezes, e desmontava com facilidade qualquer afirmação demagógica.
E se por acaso, antes de uma entrevista com um qualquer senador ou outro político, se atreviam a exercer sobre ele, directa ou indirectamente, qualquer tipo de pressão, então as coisas pioravam ainda mais. Nessa altura tornava-se implacável. Por tudo isto, os políticos tinham-lhe um temor reverencial e lambiam-lhe descaradamente as botas. Claro que recusar-lhe uma entrevista estava fora de questão. Nos mentideros da política, dizia-se, meio a sério, meio a brincar, que só havia uma coisa pior para a imagem de um político do que ir a uma entrevista com John Powers: recusar uma entrevista a John Powers.
Enquanto tomava um primeiro pequeno-almoço, composto apenas por uma tosta com compota e um copo de café com leite, aproveitou para ver as notícias na Intervisão. Mais uma vez, o enorme rosto do imponente reverendo Julius MacBain enchia o ecrã. Era o líder do movimento antitabaco que, não contente com todas as medidas repressivas do fumo já aprovadas, pretendia ilegalizar o mesmo. O terrível reverendo vociferava: «O tabaco é o pai de todos os vícios. A nossa juventude começa sempre por experimentar os cigarros, para de seguida se entregar ao álcool e às drogas. Como tal, não podemos ter um eficaz combate à droga, sem primeiro ilegalizar o tabaco.» De seguida, farto de dislates, mudou para o canal onde estava configurado o site meteorológico.
É uma das muitas vantagens da Intervisão. Com ela, tanto podemos ter acesso à televisão tradicional, embora esta comece a rarear, como à televisão interactiva, como ainda à Internet. E todos os canais de televisão, mesmo da tradicional, já têm um site na Internet, onde se pode assistir à emissão normal. É também possível, a pedido do próprio, assistir a qualquer dos programas desse canal emitidos nos últimos seis meses. Com publicidade, é claro. Depois dos acessos em banda larga se terem vulgarizado, qualquer cidadão tem acesso a virtualmente todos os canais do mundo. Muitos deles ainda são pagos. Mas a tendência geral é para a gratuitidade. O que aconteceu foi que a maioria das televisões passaram a cobrar apenas pelo visionamento dos programas de maior audiência. Na Intervisão as audiências podem ser monitorizadas em tempo real e espectador a espectador. Os tempos do share determinado por amostragem já acabaram.
Actualmente já não se vendem televisões sem acesso à Internet integrado. No fundo, todas as televisões têm um poderoso PC incorporado na caixa. Os clubes de vídeo desapareceram há muito. Nem na Intervisão conseguiram sobreviver. É que as grandes distribuidoras passaram a alugar os seus filmes directamente ao particular. Por intermédio da Intervisão, é claro. O factor que mais contribuiu para o nascimento deste negócio foi a vulgarização dos acessos em banda larga. Cabos de fibra óptica, rede telefónica em ADSL, ou rede eléctrica; todos proporcionavam vários megabits de largura de banda.
Este era um dia especial, porque John ia tentar aquilo que todos os colegas, apesar de inúmeras diligências, jamais tinham conseguido. Era a entrevista que todos queriam fazer. Uma espécie de Santo Graal do jornalismo. Ia tentar convencer o multimilionário Peter Frampton a deixar-se entrevistar em directo para todo o mundo. A excêntrica e carismática figura era um adepto ferrenho do low-profile. Aos quarenta e sete anos, era um dos homens mais ricos do mundo mas, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, nunca tinha dado uma entrevista. Era também considerado o maior filantropo da história. Dizia-se mesmo que se Peter não era ainda o homem mais rico do mundo, era porque a partir de uma dada altura passara a entregar grande parte dos rendimentos à fundação de acção social que fizera questão de criar.
Aos amigos dizia apenas que só assim poderia fazer sentido continuar a gerir o imenso grupo económico com total entusiasmo. «Para quê continuar a amontoar dinheiro que já não me faz falta, se não o usar para ajudar quem precisa?» Era a frase que mais utilizava quando se falava desses assuntos.
Nascido no Sudeste da Virginia em 1982, Peter Frampton ficara órfão muito cedo. O pai morreu tinha ele apenas vinte anos. Peter, por ser o mais velho, ficou encarregado do pequeno rancho que o pai lhes deixara. Demonstrou desde cedo não só uma firme vontade de vencer, como uma aptidão natural para o negócio. Em dois anos, comprou alguns ranchos vizinhos e aumentou enormemente a área de pastagens. Usando as mais modernas técnicas da pecuária, transformou a outrora decrépita propriedade numa unidade muito lucrativa. Isto sem nunca deixar de comprar terras. Mas Frampton continuaria a ser um anónimo criador de gado, apesar de rico, se não fosse uma ideia luminosa que um dia lhe surgiu. Foi essa inspiração que lhe trouxe notoriedade mundial, ao mesmo tempo que deu início a um imenso grupo económico.
Corria o ano de 2007. Ao visitar a empresa de um amigo em Richmond, Peter deu-se conta de um facto curioso. Apesar das repetidas previsões dos gurus da informática de que o papel iria deixar de ser usado no escritório, as empresas cada vez gastavam mais. Tiravam-se listagens por tudo e por nada, assim como fotocópias. E como as impressoras e fotocopiadoras eram cada vez mais rápidas e baratas, o consumo de papel tinha aumentado de forma exponencial. E as florestas continuavam a ser sacrificadas. Em pleno século XXI, ainda não tinha sido encontrado um substituto eficaz para a pasta de celulose.
Foi então que Frampton se lembrou do livro electrónico que utilizava assiduamente. Em casa ou no escritório, usava-o todos os dias para ler jornais, revistas, ou livros que tanto comprava na Internet, como em microDVD nas papelarias e livrarias. Perguntou-se então porque não conceber um livro electrónico virado para a utilização nas empresas. Neste caso, seria mais uma impressora electrónica do que um livro. A ideia tomou rapidamente forma no seu espírito. Todos os funcionários teriam um na secretária. Assim, em vez de imprimir em papel, toda a gente poderia imprimir directamente para o aparelho, visualizando lá as listagens. De maior dimensão que o seu predecessor, com ligação sem fios ao PC do utilizador, seria o periférico perfeito. Poderia também formar uma rede provisória com outros aparelhos iguais. Assim, a troca de informação numa reunião estaria muito facilitada.
O ecrã seria sensível ao toque e os utilizadores poderiam fazer anotações nos documentos, com uma caneta própria, ou até mesmo criar documentos totalmente manuscritos, se assim o entendessem. E como todos os modelos teriam memória permanente, o útil aparelho funcionaria ainda como arquivo, evitando a perda de documentos importantes. Quanto mais pensava no assunto, mais entusiasmado ficava. Mas não foi fácil convencer um engenheiro informático amigo, Paul Davies, a apostar no projecto.
— Desculpa lá, Peter, mas o que me estás a propor é um Tablet PC — disse Paul, depois de ouvir a explicação de Peter. — Isso já foi lançado há vários anos pelo Bill Gates.
— Enganas-te, Paul. O objectivo do Tablet PC era substituir tanto os PC portáteis, como os PC de secretária por um mais flexível, que fizesse o trabalho de ambos. Mas acabou por não substituir satisfatoriamente nenhum dos dois. Daí o relativo insucesso.
— Sim, mas não é esse o objectivo do teu aparelho?
— Não, nada disso. O meu aparelho não pretende, de modo algum, substituir o PC. É muito mais simples que isso. Funcionará apenas como mais um periférico, ligado ao computador de cada um dos colaboradores de uma empresa. É como se fosse uma impressora nova, que, em vez de papel, utiliza um ecrã LCD para mostrar os documentos «impressos». Os Tablet PC pesam 2 kg ou mais e custam, no mínimo, 1500 dólares. O meu aparelho deverá pesar menos de um quilo, e não custará mais de 500 dólares. A única função em que ambos coincidem é aceitarem escrita manual e poderem ser de grande utilidade numa reunião, servindo não só como bloco de notas, como ainda de dossier, transportando consigo toda a documentação necessária.
— Ok, Peter, já percebi a tua ideia e parece-me boa. Até já tenho um nome: PrintPad, o que achas?
— Olha, acho que resolveste um dos meus problemas. Tinha pensado em e-printer, mas estou farto de tantos «e-qualquer coisa». Faltava-me o nome, mas PrintPad parece-me óptimo — disse Peter, entusiasmado.
— De qualquer forma, há ainda um problema. As pessoas gostam de ter papel nas mãos. Adoram acariciá-lo, arquivá-lo, ou simplesmente amachucá-lo, para de seguida marcar dois pontos no cesto de papéis mais próximo. São hábitos demasiado enraizados. Não estou a vê-las utilizar o teu aparelho de boa vontade.
— Ouve, Paul, o que me estás a dizer é verdade. E eu sei que, pelo menos no início, não vai ser fácil convencer as pessoas a imprimirem os documentos para o PrintPad. Provavelmente terão de lhes tirar acesso às impressoras tradicionais. Mas se conseguirmos implementar o conceito numa só empresa, quando as outras virem os resultados em termos de poupanças, não só de papel, mas também de tóner e energia eléctrica, vão todas querer seguir o exemplo.
— Pois, estou a ver. És capaz de ter razão — disse Paul, dando um gole no cognac. Estavam sentados na sala de estar de Peter, depois de jantar. Paul acompanhava o café com um Napoleon. Quanto a Peter, beberricava um vinho do Porto, a sua bebida favorita.
— Ah, e outra coisa, as despesas com fotocópias também se vão reduzir drasticamente.
— Como assim?
— Pensa um pouco. Quando alguém quiser dar uma cópia a um colega, de um qualquer documento, simplesmente envia uma para o aparelho dele. Assim, também as fotocopiadoras vão ser menos utilizadas.
— Já vi que pensaste em tudo. Mas ainda penso que as pessoas vão opor grande resistência — disse Paul, acendendo um Cohiba. Não dispensava um puro depois de jantar.
— No início sim, mas como as chefias vão estar apostadas em fazer funcionar o projecto, todos vão ser obrigados a habituar-se ao conceito. E passado um ano, vão dar consigo a pensar como é que conseguiam trabalhar sem o Printpad. É sempre assim com as inovações. — O entusiasmo era bem patente na voz de Peter.
— Lá isso é verdade, mas ouve, isto é um projecto muito caro e eu não tenho dinheiro para o financiar.
— Não me parece que seja assim tão caro. A tecnologia envolvida já existe toda, portanto não haverá trabalho de investigação. Tudo o que temos a fazer é convencer uma empresa de capital de risco a apostar no projecto.
— Dizes isso como se fosse fácil.
— E não vai ser? A ideia é óptima! — disse Peter, bebendo um pouco mais de vinho do Porto. Fechou os olhos, deliciado, enquanto passava a língua pelo palato. Aquele vintage era mesmo muito bom.
— Sempre modesto, meu amigo. Mas com o fracasso rotundo das dotcom, tornou-se muito complicado arranjar capital para projectos informáticos.
— Eu sei. Mas tenho alguns conhecimentos que nos podem ajudar. Vou já fazer uns telefonemas. — Peter levantou-se enérgico.
— Espera, não te estás a esquecer de nada? Não podemos ir ter com esses homens de mãos a abanar. Temos de levar um projecto com pés e cabeça. E já patenteado, é claro.
— Ok, pronto, estou a ver. Nesse caso, temos de dar início ao projecto, o mais depressa possível.
— Claro, eu por mim começo já hoje. Olha, pá, acho que arranjaste um sócio — disse Paul, apertando firmemente a mão de Peter.
E começaram de imediato. Trabalharam dia e noite e conseguiram registar a patente em tempo recorde. Encontrar capital de risco também não foi difícil. A ideia era realmente boa e os lucros potenciais, se a mesma resultasse, seriam extremamente elevados. Começaram por construir um protótipo e por realizar uma forte bateria de testes. No entretanto, foram alugadas instalações para a linha de montagem e para os escritórios, tendo Peter iniciado um périplo pelas grandes empresas dos Estados Unidos, para tentar obter encomendas. Depois, passar-se-ia à produção.
Não foi fácil convencer as primeiras companhias a arriscar. E as primeiras experiências no terreno foram bem mais difíceis do que esperava. Apesar de possuírem o aparelho, a maioria das pessoas continuou fazer sair listagens em papel. Em alguns casos, os directores viram-se obrigados a retirar o acesso às impressoras para evitar a sua utilização. Mas, lentamente, toda a gente se foi habituando à ideia e o êxito foi enorme. Os gastos com listagens e fotocópias desceram mesmo noventa por cento e as organizações ecologistas exultaram. Peter e Paul, que tinham dado várias conferências de imprensa de lançamento do Printpad, tornaram-se figuras públicas muito requisitadas pelos media e foram várias vezes convidados para dar entrevistas na televisão. Peter, como bom bicho-do-mato, recusou sempre, mas Paul até gostava de ir.
Por tudo isto, Peter tornou-se uma lenda viva e todos os jornalistas do país tinham tentado, alguns várias vezes, entrevistá-lo. Sempre sem sucesso, é claro. Raramente era fotografado ou filmado, pois evitava habilmente os media. E além disso passava a maior parte do tempo no enorme rancho da Virginia. De lá, utilizando uma impressionante panóplia de computadores, controlava todo o seu império. «Eu gosto é de estar sossegado no meu cantinho. Já conheço gente a mais» costumava ele dizer aos amigos. O «cantinho», como gostava de lhe chamar, tinha cerca de cento e vinte mil hectares. Aí estava instalada uma gigantesca exploração pecuária, com mais de trinta mil cabeças de gado.
John simpatizara imediatamente com Peter Frampton. Entre os dois, estabelecera-se uma empatia intensa no instante em que apertaram a mão. Chegar à fala com o milionário tinha sido fácil. Demasiado fácil até. No dia seguinte a ter pedido à secretária uma reunião particular, esta ligara a marcar a mesma para a semana seguinte. Na quinta da Virgínia, claro. Desconfiado por natureza, Powers sabia que o mais duro ainda estava para vir.
Ao chegar, ficara espantado com o aspecto extremamente simples e rústico da casa. Era um solar enorme, todo pintado de branco. O telhado era em telha de canudo com a característica cor de tijolo. No interior, o chão era em lajes de pedra não polida, coberto de espessos tapetes persas. O tecto da sala principal era todo em vidro e ficava a sete metros de altura. Sentado num dos sofás de verga, John conseguia ver, lá muito em cima, o vigamento de madeira que sustentava o telhado. Este devia ter uma clarabóia, pois a luz do sol que enchia a sala vinha também de cima, não apenas das janelas. A toda a volta, corria um varandim de madeira que ladeava uma mezzanine de acesso aos quartos. Nas paredes, em vez de Picassos e Rembrandts, como seria de esperar, estavam reproduções ampliadas de desenhos de criança. Tinham no entanto um encanto muito especial.
Mas John sabia que o aspecto simples e despretensioso da casa era totalmente enganador. Na realidade, quando chegara ao portão da herdade, deparara com uma câmara que acompanhou o carro nos últimos metros.
— John Powers?
Perguntara uma voz, ainda antes de John tocar à campainha.
— Sim, sou eu.
— Por favor, encoste o indicador direito ao leitor.
John obedeceu, pensando lá para com ele onde é que tinham desencantado as suas impressões digitais.
— Conferem — disse a voz. — O portão vai abrir-se. Siga sempre em frente até à casa grande, sem ultrapassar as trinta milhas por hora. São cerca de dez minutos. Não precisa de tocar à porta, pois está aberta. Entre e sente-se na sala.
Era então verdade o que diziam. Pelo menos assim parecia. Em casa, Peter Frampton não tinha empregados permanentes, com excepção da secretária, de quem se dizia ser amante. Mas se o povo, com a sua imensa má-língua, afirmasse o contrário, é que John se admiraria. De qualquer forma, o homem era viúvo. Estava no pleno direito de ter as amantes que quisesse.
Quando o gigante negro entrou na sala, John não pôde deixar de sentir o forte impacto daquela personalidade magnética. Como o milionário nunca aparecia em público, o jovem repórter só o conhecia de algumas fotografias de papparazi. E apesar de não se considerar facilmente impressionável, não pôde deixar de reconhecer para consigo que a entrada de Peter o perturbara momentaneamente.
Com perto de dois metros de altura, e uma impressionante largura de ombros, tinha uma formidável compleição física, que já lhe tinha valido a alcunha de «Bom Gigante». No entanto, quem esperasse encontrar um gigante pachorrento enganava-se redondamente. Extremamente dinâmico e capaz de um ritmo de trabalho elevadíssimo, era muito difícil de acompanhar. Tinha fama de trabalhar normalmente dezasseis a dezoito horas por dia, sem denotar o mínimo cansaço.
— É então você o famoso John Powers. O único jornalista que vale a pena ver!
— Sou, e você o famoso Peter Frampton. O único milionário que vale a pena entrevistar.
— Ah, ah, oh homem, você é cá dos meus. Não perde tempo, e vai direito ao assunto.
— Meu caro amigo, você faz praticamente sozinho a gestão de um dos maiores grupos industriais do mundo. Já para não falar deste rancho. Como tal, não pode, com toda a certeza, perder tempo. Mas já agora, diga-me uma coisa, só por curiosidade. Onde é que desencantou as minhas impressões digitais? Que eu saiba, isso é ilegal.
— Seria, se estivessem guardadas no meu computador.
— Mas então, como é que a máquina as conferiu?
— É simples, o meu sistema enviou-as para o centro de identificação do FBI e a máquina deles enviou-me o seu nome e fotografia.
— Bolas, que esta casa é tão segura como o Banco da Reserva Federal.
— Na verdade é bastante mais segura. Não se lembra do Assalto em Nova Iorque? Aqui tem a bebida — disse Peter estendendo-lhe um Johnnie Walker com gelo.
— Já vi que também gosta de filmes antigos de acção. De qualquer forma, tudo isto não é um bocado exagerado? E já agora, como é que sabia qual a minha bebida preferida? Não me diga que também foi o computador do FBI que lho disse...
— O FBI não tem essa informação. Ainda se fosse a marca da sua roupa interior… Foi fácil, tenho alguns contactos na CNN e gosto sempre de me informar sobre as pessoas com quem vou falar. Quanto à casa, sabe, eu em tempos não me preocupava mesmo nada com segurança. Mas depois do rapto da minha filha…
— O quê, a sua filha foi raptada?! Mas ninguém soube de nada.
— Pois não, porque eu calei-me e paguei os vinte milhões de dólares que os raptores exigiam. Mas prometa-me que não divulga nada. Sabe-se lá a quantidade de tarados que poderiam ficar com ideias.
— Compreendo, fique descansado. Mas voltemos ao que me trouxe cá. A entrevista que eu lhe quero fazer…
— Sabe, eu gosto de si. Gosto mesmo. E raramente me engano sobre as pessoas. Mas, diga-me uma coisa: você sabe que eu nunca dei uma entrevista. Porque é que hei-de abrir uma excepção para si?
— Porque os meus motivos são muito importantes.
— Ah sim, muito importantes porquê? O mundo vai acabar no fim do ano? Vamos ser atacados por marcianos? Já sei, descobriram finalmente um político honesto… Meu filho, aprenda uma coisa: não são as falinhas mansas de um jovem simpático que me levam a quebrar os meus princípios.
— Deixe-se de sarcasmos e ouça-me com atenção. O assunto é sério. É mesmo crucial para o nosso país.
— Ok, peço perdão a V.Exa. e sou todo ouvidos. — Frampton estava espantado com o arrojo e irreverência de Powers, mas a situação era francamente divertida.
— Assim está melhor. Bom, você sabe que a 31.ª Emenda vai ser votada em breve no Congresso.
— Sei, esses safados hipócritas! Querem considerar a nicotina uma droga ilegal e proibir de vez o tabaco. Desta vez foram longe de mais. Já não bastavam todas as outras leis repressivas sobre os fumadores. Não senhor, eles não estavam contentes. Já agora proíbam também o sexo e o álcool. Isto está bonito...
— Eu sei que a coisa está feia, mas nem tudo está perdido. Temos de tentar impedir por todos os meios que essa lei passe no Congresso. E uma entrevista consigo, em directo para todo o mundo, ia ajudar bastante. Podia desmontar alguns argumentos falaciosos e esclarecer a opinião pública.
— Olhe, por esses motivos, eu até lhe dava a entrevista. Mas você sabe perfeitamente que sou parte interessada neste processo. Como tal, não me posso envolver publicamente no assunto.
— Parte interessada... não estou a ver... ah, já sei, a «Máquina de Fumar» do Quental.
— Sim, o maluco do português. Como você sabe, se a lei for para a frente, perco muitos milhões. Sendo assim, ao tomar partido contra a mesma, iria parecer estar a defender apenas interesses económicos, e não o direito, aliás, totalmente legítimo, dos fumadores se matarem em paz…
— Eh, alto lá, que eu também sou fumador e não acho que me esteja a matar. Aliás, se viver menos uns anos, qual é o problema? Nessa altura já estarei velho de mais para gozar a vida.
— Oh meu caro amigo! Nunca se é demasiado velho para gozar a vida. Além do mais, e se lhe dá um enfarte ou uma trombose aos cinquenta? Até pode sobreviver, mas a sua qualidade de vida desce para baixo de zero. Deixa à mesma de fumar, mas pelas piores razões. E depois, como não há botão para desligar, tem de viver mesmo assim. Isto sem mencionar o cancro do pulmão ou o enfisema, que o matam logo e pronto. Fica o caso arrumado.
— Eh pá, você sabe mesmo como animar um fumador. — John estava visivelmente incomodado.
— Não se esqueça que também fumei durante vinte anos. E sempre tive o mesmo tipo de argumentos falaciosos comuns a todos os fumadores. Até que um médico meu amigo os rebateu um por um, sem deixar nada a que me agarrar. «Fumar é um acto estúpido. O fumador não sabe se por causa do fumo vai viver menos anos, mas de uma coisa pode ter a certeza: mesmo sem ter nenhuma doença grave, vai de certeza viver pior.» Com esta frase, arrumou-me completamente. Nesse dia fumei o meu último cigarro. É que, repare, é nos últimos anos da nossa vida, já fracos e sem genica, que ter saúde se torna mais importante.
— Realmente, nunca tinha encarado a questão desse ângulo. Mas de qualquer forma, ainda sou muito novo para me preocupar. Além do mais, se parasse agora era o mesmo que dar razão aos proibicionistas.
— Desculpe, mas não concordo. Ninguém põe em causa que o tabaco faz mal. Não é por você deixar de fumar que vai concordar com a proibição total do tabaco. Estará apenas a cuidar da saúde.
— Está bem, pronto, tem razão. No fundo é apenas falta de vontade. E medo de falhar, também.
— Ok, a vida é sua, mas agora vamos ao que interessa. Precisamos de um plano para evitar que essa maldita lei vá para a frente. Só tenho pena de não lhe poder dar a tal entrevista.
— Só por causa da «Máquina de Fumar»? Peter, acha que as pessoas não sabem que o dinheiro para si deixou de contar? Para que é que um dos homens mais ricos do mundo precisa de mais dinheiro? Só pelo gozo de o amontoar?
— O que você diz faz sentido, para mim e para si. Mas muita gente não vê as coisas por esse prisma. Pensam que quanto mais se tem mais se quer, nem que seja por uma questão de poder. Não vê que até há quem diga que eu só criei a fundação para melhor controlar as riquezas naturais dos países do terceiro mundo?
— Lá isso é verdade, mas tive outra ideia. E se você garantisse que se a lei não fosse aprovada doaria, digamos, cinquenta por cento dos seus lucros com a máquina do Quental nos Estados Unidos para programas de combate ao tabagismo?
— Isso é uma excelente ideia. E como a minha outra metade dos lucros já está a ser entregue à fundação, deixo definitivamente de ser parte interessada.
— Magnífico! Finalmente começo a ver uma luz ao fundo do túnel. E não é a de um comboio... Já agora, Peter, a fundação tem feito um excelente trabalho de ajuda aos países mais pobres.
— Obrigado. Só tenho pena de não poder intervir como deve ser nos países em guerra.
— Sim, mas fazem o que podem e já não é pouco. Outra coisa, Peter: como é que descobriu o Quental?
— Foi numa visita que fiz a Lisboa. Encontrei-o num café, bêbedo e desesperado, prestes a queimar os planos da máquina. Foi um golpe de sorte incrível.
— Pois foi. Entre a máquina e todas as outras invenções, o Quental já lhe deu muito dinheiro a ganhar.
— Sim, mas nem tudo são rosas. O homem tem dez ou doze ideias novas por semana, mas nem todas são boas. O que vale é que ele tem o bom senso de mas enviar por email, para eu me pronunciar.
— Quer dizer que você faz uma primeira triagem?
— Pois, ainda antes de gastarmos tempo e dinheiro em estudos de viabilidade. Mas às vezes não é fácil. O gajo é muito casmurro e nem sempre consigo demovê-lo.
— Então ele às vezes avança, apesar dos seus conselhos?
— Sim, e eu, por uma questão de solidariedade, avanço com ele. Mas invariavelmente é dinheiro deitado à rua. Portanto, se o Quental já me deu muito dinheiro a ganhar, eu também já lhe poupei muita massa.
— Estou a ver, mas olhe, eu ficava aqui à conversa consigo até amanhã, só que nos estamos a desviar do primeiro assunto que cá me trouxe.
— Quanto à entrevista, pode contar com ela.
— Óptimo! Quando é que tem disponibilidade? — perguntou John.
— Para uma coisa dessas, arranjo sempre tempo. Quanto mais depressa for para o ar, melhor… já agora, isto devia ser feito em horário nobre.
— Claro, claro. A primeira entrevista de sempre, do milionário mais carismático e misterioso do mundo, vai, de certeza absoluta, bater todos os recordes de audiência. Ainda por cima sobre um tema tão controverso como a ilegalização ou não do tabaco.
— Óptimo, então vamos fazer assim: peça ao seu chefe que nos marque a entrevista o mais cedo possível. De preferência num sábado à noite. Depois faça um primeiro esboço dos temas que vamos focar e das perguntas que vai fazer e envie-mo por email.
— Desculpe, mas as perguntas não posso enviar. Nunca as forneço aos meus entrevistados. Não posso abrir uma excepção para si.
— Compreendo. Se esse é o seu modo de trabalhar, não faria sentido abrir uma excepção.
— Entretanto tive outra ideia. E se aproveitássemos a entrevista para anunciar ao mundo a decisão de doar todos os lucros da máquina do Quental?
— Mais um «furo» para John Powers, não é assim?
— Bom, faz-se o que se pode.
— Pois é, mas olhe, eu acho que uma conferência de imprensa com toda a comunicação social e em directo para todas as cadeias de televisão, incluindo as da Intervisão, teria mais impacto.
— Paciência, não me pode censurar por tentar…
— Claro que não, ninguém o está a censurar. Mas entende o meu ponto de vista, não é?
— Sim, sim. Não há problema nenhum. Olhe, eu vou então tratar de tudo e assim que tiver novidades, recebe um mail meu. Agora é melhor ir, porque a viagem é longa e o meu avião parte dentro de uma hora.
— Ouça, porque é que não fica por cá até amanhã? Assim teria oportunidade de lhe mostrar o rancho e poderíamos sempre discutir mais um pouco o esquema da entrevista.
— Pode ter a certeza que nada me daria mais prazer. Mas tenho esta semana totalmente preenchida com compromissos inadiáveis. Fica para a próxima, está bem?
— Ok, mas nesse caso faço questão que passe cá um fim-de-semana prolongado. E claro, a sua namorada está também convidada.
— Está combinado. A Mary vai adorar conhecê-lo. Bom, desta vez é que tem de ser. Até à próxima, Peter, foi um prazer.
— Igualmente, obrigado. Então boa viagem, John.
E os dois homens trocaram um aperto de mão firme e caloroso. Nesse instante, tinham ambos a certeza que acabara de nascer não só uma boa amizade, mas também uma formidável parceria na luta contra a intolerância e tacanhez de espírito dos proibicionistas.
Lisboa, Julho de 2012.
Peter Frampton entrou na Brasileira do Chiado para a segunda bica do dia. Líder máximo das Frampton Industries, precisara de se deslocar a Lisboa para resolver alguns problemas relacionados com a filial portuguesa. Já não era a primeira vez. Como adorava Portugal, aproveitava qualquer desculpa para aqui se deslocar pessoalmente. Com qualquer outro país, mandaria um executivo, mas o certo é que Peter estava meio enfeitiçado por aquele povo original, algo tristonho, mas muito simpático, e seu bonito país. Não sabia bem explicar. É certo que Lisboa era uma cidade lindíssima. Só que Paris, ou Roma, também o eram. No entanto, raramente se deslocava àqueles países, mas visitava Portugal todos os anos. Sem saber bem porquê. Só sabia que não era o único caso. Vários amigos seus que tinham visitado o país acabaram por tornar-se visitas regulares. Parecia que um qualquer magnetismo os fazia sempre voltar.
Um dos motivos pelos quais ia em pessoa era para poder reabastecer-se de vinho do Porto. Se os vinhos portugueses eram dos melhores do mundo, o vinho do Porto era único. Quando, já há alguns anos, provara o precioso néctar pela primeira vez, ficara imediatamente seduzido por um sabor… como explicar, algo divino. Desde então, não dispensava um cálice depois das refeições. E, claro, aproveitava as idas a Lisboa para comprar várias caixas dos melhores vintages.
Mal entrou, reparou imediatamente num homem sentado a um canto. Com ar taciturno, nitidamente alcoolizado, murmurava palavras ininteligíveis e fumava furiosamente. Peter, habituado que estava a avaliar o seu semelhante com um simples olhar, percebeu logo não estar diante de um vulgar bêbado. Quando entrou, o outro levantou a custo a cabeça e o seu olhar penetrante cruzou-se por um instante com o dele. Era hipnótico, intoxicante, e incomodou-o profundamente. Olhos vítreos, de um negro absoluto, sussurraram-lhe ao ouvido palavras de apelo, pinceladas aqui e ali de um orgulho ancestral. De repente, sem aviso prévio, o bizarro personagem levantou bruscamente a cabeça e, acto contínuo, ergueu o cálice de bagaço em jeito de brinde, ao mesmo tempo que lhe fazia sinal para se sentar à mesa. Incapaz de pensar, Peter sentou-se, mecanicamente. E, num ápice, o universo confinava-se àquela mesa, a si, mudo de espanto, e ao bêbado estranhíssimo sentado à sua frente com ar trocista.
Foi então que ele falou. A voz soou cava e profunda, como numa cena esotérica de um qualquer filme de série B.
— Caro senhor, encontro-me numa situação lamentável. Contudo... desculpe, o senhor não é português, pois não? — Peter fez que não com a cabeça. — Pois, bem me parecia, mas, pelos vistos, percebe português? — E Peter, ainda incapaz de falar, acenou um «mais ou menos». — O melhor é continuarmos em inglês, não acha? — O milionário concordou com a cabeça.
— Antes de mais, deixe que me apresente: Júlio Quental, muito prazer — disse o inventor num inglês bem razoável, enquanto estendia a mão.
— Frampton. Peter Frampton, muito prazer.
— O quê? O Peter Frampton, das Frampton Industries?
— Olhe, o da música é que não sou, de certeza.
— Mas nesse caso os deuses estão comigo. Era difícil encontrar alguém mais adequado para apresentar o meu invento. Vamos então aos factos: há coisa de seis meses, terminei os planos de uma máquina que pode mudar a sociedade. Apressei-me a registar a patente mas agora não tenho dinheiro para produzir o protótipo. Este invento pode tornar-me a mim, que estou falido, imensamente rico; e ao senhor também, se aceitar o meu desafio, é claro. Não, eu sei que tenho todo o ar disso, mas não estou maluco.
Peter reparou pela primeira vez no aspecto bizarro do desconhecido: tinha cerca de trinta anos. Calçava botas da tropa, vestia calças de ganga pretas com uma T-shirt da mesma cor e, apesar de ser Verão, uma gabardina cinzenta à Colombo, só que bastante mais sebenta e encardida que a do famoso detective. Não era careca, mas tinha o cabelo rapado com esmero. O nariz adunco dava-lhe um certo ar de ave de rapina. Sem dúvida, uma estranha figura. E falava sem cessar, como se receasse que, à primeira pausa, ele se levantasse e saísse porta fora.
— Não, garanto-lhe que não estou maluco. Bem vê, esta máquina pode resolver de uma vez por todas os problemas de consciência dos fumadores. Está a ver, o maior problema de um fumador, para além, como é óbvio, do grande mal que faz a si próprio, é o mal e incómodo que provoca aos outros à sua volta. Eu próprio, apesar de completamente agarrado, evito acender cigarros em sítios onde, mesmo não sendo proibido, sei que vou incomodar terceiros. Só é pena que nem todos ajam assim. É uma questão de hábito, penso eu. Aliás, a maioria das leis restritivas do fumo, nas quais os EUA são campeões, têm por base os direitos dos chamados «fumadores passivos». E o senhor, sendo americano, conhece essa realidade bem melhor que eu. Ora bem, com a minha máquina este tipo de problemas desaparecia. E porquê?, pergunta-me o senhor. É que com este invento, ao qual dei o nome de «Máquina de Fumar», sempre que alguém fumar um cigarro, mesmo numa sala fechada, em vez de poluir o ar este tornar-se-á mais puro. Parece impossível, não é? E, no entanto, é terrivelmente simples. Olhe, eu trago sempre comigo uma cópia do projecto. E como confio no senhor, vou-lho mostrar. — E o estranho personagem tirou com ares teatrais, de uma pasta mole de cabedal preto já muito puída, um maço de folhas A4 agrafadas, passando-o a Peter. As folhas estavam gastas e amarelecidas, com sinais de manuseio intensivo. Aqui e ali, notavam-se algumas manchas de café e queimadelas de cigarro.
Na primeira página, Peter viu pela primeira vez o esquema da máquina. Parecia uma daquelas caixas metálicas para charuto. De formato cilíndrico, tinha quinze centímetros de comprimento por quatro de diâmetro. Nas páginas seguintes estavam vários esquemas pormenorizados da máquina, bem como especificações técnicas. O milionário estava espantado. Era uma ideia de uma simplicidade atroz. Um autêntico ovo de Colombo. No entanto, reagiu com cautela. Os muitos anos à frente da empresa tinham-lhe ensinado a nunca mostrar entusiasmo diante de uma aparente boa ideia.
— Desculpe lá, mas já reparou por acaso que me está a pedir para investir... o quê...? Uns quatrocentos ou quinhentos mil dólares, no mínimo, num protótipo que provavelmente nunca irá funcionar?
— Olhe, deixe-me dizer-lhe uma coisa: você é a minha última oportunidade. Já tinha decidido queimar os planos da máquina, quando você apareceu e pensei que tinha encontrado enfim um homem de visão. Afinal, é igual aos outros. Pensava eu que só os industriais portugueses tinham as vistas curtas! Merda para os planos da pólvora! Já nem os posso ver à minha frente! — Enquanto gritava, Júlio acendeu o isqueiro e chegou-o às folhas do projecto, que começaram logo a arder.
— Ok, está bem, eu dou-lhe uma oportunidade. Podemos…
— O quê? Dá-me uma oportunidade como? — disse o inventor atirando as folhas ao chão e saltando-lhes em cima para as apagar.
— Pois bem, a sua ideia parece-me boa, mas não tenho conhecimentos técnicos suficientes para avaliar a viabilidade do empreendimento. Estou no entanto na disposição de lhe marcar uma reunião com alguns dos meus melhores engenheiros. O que acha?
— Acho bem. Acho mesmo muito bem. Então, como é que combinamos?
— Olhe, eu vou estar em Lisboa até ao fim da semana. Fique com o meu cartão e ligue amanhã de manhã a marcar a entrevista.
— Está bem, eu ligo amanhã, sem falta. Até amanhã, foi um prazer conhecê-lo.
— Até amanhã, o prazer foi todo meu.
A apresentação foi um sucesso. Os engenheiros que, ao saberem o teor da reunião, se tinham mostrado extremamente cépticos, ficaram totalmente absorvidos pela brilhante apresentação de Quental. Estiveram reunidos mais de seis horas e no fim todas as dúvidas se tinham dissipado, ou pelo menos atenuado.
Só a capacidade das novas baterias a células de hidrogénio idealizadas por Quental lhes levantava algumas dúvidas. E não deixavam de ter alguma razão, pois como mais tarde se veio a verificar, essa foi a componente que mais problemas trouxe à equipa reunida pelas Frampton Industries para dar corpo ao projecto. Sob a chefia alucinada mas brilhante de Quental.
A ideia-base da «Máquina de Fumar» era tão simples como engenhosa. Quando alguém lhe apetecia um cigarro mas podia incomodar terceiros, pegava no dito e introduzia-o na máquina, deixando apenas o filtro à mostra. Depois, pressionava um botão que punha a ventoinha de sucção/extracção e o filtro a funcionar e, ao mesmo tempo, ligava o isqueiro interno. Podia então acender tranquilamente o cigarro. A partir daí, tinha apenas de se preocupar em expirar o fumo junto da grelha da frente. Testes com os primeiros protótipos comprovaram a teoria de Quental: o fumo era quase todo aspirado pela máquina, não chegando assim a poluir a atmosfera.
Uma vez dentro da máquina, as moléculas de fumo eram totalmente removidas pelo poderoso filtro electrónico de iões, sendo que este não só retirava o fumo, como também as poeiras e toda a espécie de impurezas que o ar pudesse conter. Todas essas partículas ficavam depositadas numa placa metálica especial, que devia ser limpa quando necessário. Na realidade, poder-se-ia dizer que o ar expelido pela ventoinha de sucção/extracção tinha a pureza da montanha. Porque tinha mesmo.
Frampton apercebeu-se imediatamente das enormes potencialidades sociais do invento. Doravante, os fumadores deixariam de ter problemas em fumar fosse onde fosse. Desde que munidos da «Máquina de Fumar», é claro. E todas as leis antitabaco baseadas nos direitos dos não fumadores teriam de ser revistas. No início, assim foi, na realidade. Muitos sítios onde era proibido fumar passaram a autorizá-lo, mediante o uso da máquina. A vida para os fumadores de todo o mundo ficou muito facilitada. Mas, nesse mesmo ano de 2012, surgiu também a ASLA – Anti Smoke League of America. Esta organização iniciou então uma grande cruzada antitabaco, conseguindo repor, em poucos anos, muitas das proibições anteriormente levantadas. Os seus esforços viriam a culminar na votação da 31.ª Emenda, que ilegalizaria totalmente o tabaco.
C A P Í T U L O I
Nova Iorque, Junho de 2029.
John Powers acordou bem-disposto. Era esse o grande dia. «Talvez seja hoje que fico para história do jornalismo», pensou enquanto retirava a máscara de barbear ao espelho da casa de banho. Era a última invenção do Quental. Punha-se ao deitar com um gel especial, tirava-se de manhã e era só passar a cara por água. A barba ficava impecável. Olhou-se com ar prazenteiro. Nem um grama de gordura. Aos trinta anos, apesar de gostar de comer bem e de não se privar de nada, estava em plena forma. Também, pudera. Levantava-se todos os dias às seis da manhã, com chuva ou sol, e corria dez kilometros.
De cabelo escuro encaracolado, tez morena, feições de miúdo e um eterno ar gaiato, John tinha algum sucesso entre as mulheres. Apesar do metro e oitenta bem medido, o seu olhar tinha uma candura tal que muitas o queriam proteger.
O avô materno, Jacinto Mealha, era português, filho de pescadores. Nascido no Algarve, a região mais turística de Portugal, famosa pelas lindas praias, tinha emigrado para os Estados Unidos ainda jovem, em busca do Sonho Americano. Como não tinha dinheiro para a viagem, arranjou emprego a bordo de um paquete de luxo, a servir à mesa. Aí, tomou-se de amores por uma criada de quarto dinamarquesa, com quem veio a casar. Dessa união nasceram seis rapazes e uma só rapariga: Jo Ann Mealha, mãe de John. Todos os anos prometia à mãe e a si mesmo ir visitar as origens. Mas por manifesta falta de tempo, nunca cumpria a promessa.
Apesar de jovem, tinha já granjeado na CNN uma reputação invejável. O seu programa, Just Politics, já era o mais visto da estação. Tinha fama de não conhecer impossíveis. De tal maneira que ganhou a alcunha de «John Super Powers». Por ter boa figura, já tinha sido convidado mais de uma vez para pivot do jornal das seis, mas recusara sempre. Do que ele gostava era do jornalismo de investigação e das entrevistas difíceis, com figuras públicas de nomeada. Dotado de um agudo espírito crítico, era sempre frontal e directo. Preparava as entrevistas ao pormenor, sabendo como ninguém pôr o dedo na ferida. Nunca permitia que as perguntas fossem contornadas, nem que tivesse de as repetir várias vezes, e desmontava com facilidade qualquer afirmação demagógica.
E se por acaso, antes de uma entrevista com um qualquer senador ou outro político, se atreviam a exercer sobre ele, directa ou indirectamente, qualquer tipo de pressão, então as coisas pioravam ainda mais. Nessa altura tornava-se implacável. Por tudo isto, os políticos tinham-lhe um temor reverencial e lambiam-lhe descaradamente as botas. Claro que recusar-lhe uma entrevista estava fora de questão. Nos mentideros da política, dizia-se, meio a sério, meio a brincar, que só havia uma coisa pior para a imagem de um político do que ir a uma entrevista com John Powers: recusar uma entrevista a John Powers.
Enquanto tomava um primeiro pequeno-almoço, composto apenas por uma tosta com compota e um copo de café com leite, aproveitou para ver as notícias na Intervisão. Mais uma vez, o enorme rosto do imponente reverendo Julius MacBain enchia o ecrã. Era o líder do movimento antitabaco que, não contente com todas as medidas repressivas do fumo já aprovadas, pretendia ilegalizar o mesmo. O terrível reverendo vociferava: «O tabaco é o pai de todos os vícios. A nossa juventude começa sempre por experimentar os cigarros, para de seguida se entregar ao álcool e às drogas. Como tal, não podemos ter um eficaz combate à droga, sem primeiro ilegalizar o tabaco.» De seguida, farto de dislates, mudou para o canal onde estava configurado o site meteorológico.
É uma das muitas vantagens da Intervisão. Com ela, tanto podemos ter acesso à televisão tradicional, embora esta comece a rarear, como à televisão interactiva, como ainda à Internet. E todos os canais de televisão, mesmo da tradicional, já têm um site na Internet, onde se pode assistir à emissão normal. É também possível, a pedido do próprio, assistir a qualquer dos programas desse canal emitidos nos últimos seis meses. Com publicidade, é claro. Depois dos acessos em banda larga se terem vulgarizado, qualquer cidadão tem acesso a virtualmente todos os canais do mundo. Muitos deles ainda são pagos. Mas a tendência geral é para a gratuitidade. O que aconteceu foi que a maioria das televisões passaram a cobrar apenas pelo visionamento dos programas de maior audiência. Na Intervisão as audiências podem ser monitorizadas em tempo real e espectador a espectador. Os tempos do share determinado por amostragem já acabaram.
Actualmente já não se vendem televisões sem acesso à Internet integrado. No fundo, todas as televisões têm um poderoso PC incorporado na caixa. Os clubes de vídeo desapareceram há muito. Nem na Intervisão conseguiram sobreviver. É que as grandes distribuidoras passaram a alugar os seus filmes directamente ao particular. Por intermédio da Intervisão, é claro. O factor que mais contribuiu para o nascimento deste negócio foi a vulgarização dos acessos em banda larga. Cabos de fibra óptica, rede telefónica em ADSL, ou rede eléctrica; todos proporcionavam vários megabits de largura de banda.
Este era um dia especial, porque John ia tentar aquilo que todos os colegas, apesar de inúmeras diligências, jamais tinham conseguido. Era a entrevista que todos queriam fazer. Uma espécie de Santo Graal do jornalismo. Ia tentar convencer o multimilionário Peter Frampton a deixar-se entrevistar em directo para todo o mundo. A excêntrica e carismática figura era um adepto ferrenho do low-profile. Aos quarenta e sete anos, era um dos homens mais ricos do mundo mas, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, nunca tinha dado uma entrevista. Era também considerado o maior filantropo da história. Dizia-se mesmo que se Peter não era ainda o homem mais rico do mundo, era porque a partir de uma dada altura passara a entregar grande parte dos rendimentos à fundação de acção social que fizera questão de criar.
Aos amigos dizia apenas que só assim poderia fazer sentido continuar a gerir o imenso grupo económico com total entusiasmo. «Para quê continuar a amontoar dinheiro que já não me faz falta, se não o usar para ajudar quem precisa?» Era a frase que mais utilizava quando se falava desses assuntos.
Nascido no Sudeste da Virginia em 1982, Peter Frampton ficara órfão muito cedo. O pai morreu tinha ele apenas vinte anos. Peter, por ser o mais velho, ficou encarregado do pequeno rancho que o pai lhes deixara. Demonstrou desde cedo não só uma firme vontade de vencer, como uma aptidão natural para o negócio. Em dois anos, comprou alguns ranchos vizinhos e aumentou enormemente a área de pastagens. Usando as mais modernas técnicas da pecuária, transformou a outrora decrépita propriedade numa unidade muito lucrativa. Isto sem nunca deixar de comprar terras. Mas Frampton continuaria a ser um anónimo criador de gado, apesar de rico, se não fosse uma ideia luminosa que um dia lhe surgiu. Foi essa inspiração que lhe trouxe notoriedade mundial, ao mesmo tempo que deu início a um imenso grupo económico.
Corria o ano de 2007. Ao visitar a empresa de um amigo em Richmond, Peter deu-se conta de um facto curioso. Apesar das repetidas previsões dos gurus da informática de que o papel iria deixar de ser usado no escritório, as empresas cada vez gastavam mais. Tiravam-se listagens por tudo e por nada, assim como fotocópias. E como as impressoras e fotocopiadoras eram cada vez mais rápidas e baratas, o consumo de papel tinha aumentado de forma exponencial. E as florestas continuavam a ser sacrificadas. Em pleno século XXI, ainda não tinha sido encontrado um substituto eficaz para a pasta de celulose.
Foi então que Frampton se lembrou do livro electrónico que utilizava assiduamente. Em casa ou no escritório, usava-o todos os dias para ler jornais, revistas, ou livros que tanto comprava na Internet, como em microDVD nas papelarias e livrarias. Perguntou-se então porque não conceber um livro electrónico virado para a utilização nas empresas. Neste caso, seria mais uma impressora electrónica do que um livro. A ideia tomou rapidamente forma no seu espírito. Todos os funcionários teriam um na secretária. Assim, em vez de imprimir em papel, toda a gente poderia imprimir directamente para o aparelho, visualizando lá as listagens. De maior dimensão que o seu predecessor, com ligação sem fios ao PC do utilizador, seria o periférico perfeito. Poderia também formar uma rede provisória com outros aparelhos iguais. Assim, a troca de informação numa reunião estaria muito facilitada.
O ecrã seria sensível ao toque e os utilizadores poderiam fazer anotações nos documentos, com uma caneta própria, ou até mesmo criar documentos totalmente manuscritos, se assim o entendessem. E como todos os modelos teriam memória permanente, o útil aparelho funcionaria ainda como arquivo, evitando a perda de documentos importantes. Quanto mais pensava no assunto, mais entusiasmado ficava. Mas não foi fácil convencer um engenheiro informático amigo, Paul Davies, a apostar no projecto.
— Desculpa lá, Peter, mas o que me estás a propor é um Tablet PC — disse Paul, depois de ouvir a explicação de Peter. — Isso já foi lançado há vários anos pelo Bill Gates.
— Enganas-te, Paul. O objectivo do Tablet PC era substituir tanto os PC portáteis, como os PC de secretária por um mais flexível, que fizesse o trabalho de ambos. Mas acabou por não substituir satisfatoriamente nenhum dos dois. Daí o relativo insucesso.
— Sim, mas não é esse o objectivo do teu aparelho?
— Não, nada disso. O meu aparelho não pretende, de modo algum, substituir o PC. É muito mais simples que isso. Funcionará apenas como mais um periférico, ligado ao computador de cada um dos colaboradores de uma empresa. É como se fosse uma impressora nova, que, em vez de papel, utiliza um ecrã LCD para mostrar os documentos «impressos». Os Tablet PC pesam 2 kg ou mais e custam, no mínimo, 1500 dólares. O meu aparelho deverá pesar menos de um quilo, e não custará mais de 500 dólares. A única função em que ambos coincidem é aceitarem escrita manual e poderem ser de grande utilidade numa reunião, servindo não só como bloco de notas, como ainda de dossier, transportando consigo toda a documentação necessária.
— Ok, Peter, já percebi a tua ideia e parece-me boa. Até já tenho um nome: PrintPad, o que achas?
— Olha, acho que resolveste um dos meus problemas. Tinha pensado em e-printer, mas estou farto de tantos «e-qualquer coisa». Faltava-me o nome, mas PrintPad parece-me óptimo — disse Peter, entusiasmado.
— De qualquer forma, há ainda um problema. As pessoas gostam de ter papel nas mãos. Adoram acariciá-lo, arquivá-lo, ou simplesmente amachucá-lo, para de seguida marcar dois pontos no cesto de papéis mais próximo. São hábitos demasiado enraizados. Não estou a vê-las utilizar o teu aparelho de boa vontade.
— Ouve, Paul, o que me estás a dizer é verdade. E eu sei que, pelo menos no início, não vai ser fácil convencer as pessoas a imprimirem os documentos para o PrintPad. Provavelmente terão de lhes tirar acesso às impressoras tradicionais. Mas se conseguirmos implementar o conceito numa só empresa, quando as outras virem os resultados em termos de poupanças, não só de papel, mas também de tóner e energia eléctrica, vão todas querer seguir o exemplo.
— Pois, estou a ver. És capaz de ter razão — disse Paul, dando um gole no cognac. Estavam sentados na sala de estar de Peter, depois de jantar. Paul acompanhava o café com um Napoleon. Quanto a Peter, beberricava um vinho do Porto, a sua bebida favorita.
— Ah, e outra coisa, as despesas com fotocópias também se vão reduzir drasticamente.
— Como assim?
— Pensa um pouco. Quando alguém quiser dar uma cópia a um colega, de um qualquer documento, simplesmente envia uma para o aparelho dele. Assim, também as fotocopiadoras vão ser menos utilizadas.
— Já vi que pensaste em tudo. Mas ainda penso que as pessoas vão opor grande resistência — disse Paul, acendendo um Cohiba. Não dispensava um puro depois de jantar.
— No início sim, mas como as chefias vão estar apostadas em fazer funcionar o projecto, todos vão ser obrigados a habituar-se ao conceito. E passado um ano, vão dar consigo a pensar como é que conseguiam trabalhar sem o Printpad. É sempre assim com as inovações. — O entusiasmo era bem patente na voz de Peter.
— Lá isso é verdade, mas ouve, isto é um projecto muito caro e eu não tenho dinheiro para o financiar.
— Não me parece que seja assim tão caro. A tecnologia envolvida já existe toda, portanto não haverá trabalho de investigação. Tudo o que temos a fazer é convencer uma empresa de capital de risco a apostar no projecto.
— Dizes isso como se fosse fácil.
— E não vai ser? A ideia é óptima! — disse Peter, bebendo um pouco mais de vinho do Porto. Fechou os olhos, deliciado, enquanto passava a língua pelo palato. Aquele vintage era mesmo muito bom.
— Sempre modesto, meu amigo. Mas com o fracasso rotundo das dotcom, tornou-se muito complicado arranjar capital para projectos informáticos.
— Eu sei. Mas tenho alguns conhecimentos que nos podem ajudar. Vou já fazer uns telefonemas. — Peter levantou-se enérgico.
— Espera, não te estás a esquecer de nada? Não podemos ir ter com esses homens de mãos a abanar. Temos de levar um projecto com pés e cabeça. E já patenteado, é claro.
— Ok, pronto, estou a ver. Nesse caso, temos de dar início ao projecto, o mais depressa possível.
— Claro, eu por mim começo já hoje. Olha, pá, acho que arranjaste um sócio — disse Paul, apertando firmemente a mão de Peter.
E começaram de imediato. Trabalharam dia e noite e conseguiram registar a patente em tempo recorde. Encontrar capital de risco também não foi difícil. A ideia era realmente boa e os lucros potenciais, se a mesma resultasse, seriam extremamente elevados. Começaram por construir um protótipo e por realizar uma forte bateria de testes. No entretanto, foram alugadas instalações para a linha de montagem e para os escritórios, tendo Peter iniciado um périplo pelas grandes empresas dos Estados Unidos, para tentar obter encomendas. Depois, passar-se-ia à produção.
Não foi fácil convencer as primeiras companhias a arriscar. E as primeiras experiências no terreno foram bem mais difíceis do que esperava. Apesar de possuírem o aparelho, a maioria das pessoas continuou fazer sair listagens em papel. Em alguns casos, os directores viram-se obrigados a retirar o acesso às impressoras para evitar a sua utilização. Mas, lentamente, toda a gente se foi habituando à ideia e o êxito foi enorme. Os gastos com listagens e fotocópias desceram mesmo noventa por cento e as organizações ecologistas exultaram. Peter e Paul, que tinham dado várias conferências de imprensa de lançamento do Printpad, tornaram-se figuras públicas muito requisitadas pelos media e foram várias vezes convidados para dar entrevistas na televisão. Peter, como bom bicho-do-mato, recusou sempre, mas Paul até gostava de ir.
Por tudo isto, Peter tornou-se uma lenda viva e todos os jornalistas do país tinham tentado, alguns várias vezes, entrevistá-lo. Sempre sem sucesso, é claro. Raramente era fotografado ou filmado, pois evitava habilmente os media. E além disso passava a maior parte do tempo no enorme rancho da Virginia. De lá, utilizando uma impressionante panóplia de computadores, controlava todo o seu império. «Eu gosto é de estar sossegado no meu cantinho. Já conheço gente a mais» costumava ele dizer aos amigos. O «cantinho», como gostava de lhe chamar, tinha cerca de cento e vinte mil hectares. Aí estava instalada uma gigantesca exploração pecuária, com mais de trinta mil cabeças de gado.
John simpatizara imediatamente com Peter Frampton. Entre os dois, estabelecera-se uma empatia intensa no instante em que apertaram a mão. Chegar à fala com o milionário tinha sido fácil. Demasiado fácil até. No dia seguinte a ter pedido à secretária uma reunião particular, esta ligara a marcar a mesma para a semana seguinte. Na quinta da Virgínia, claro. Desconfiado por natureza, Powers sabia que o mais duro ainda estava para vir.
Ao chegar, ficara espantado com o aspecto extremamente simples e rústico da casa. Era um solar enorme, todo pintado de branco. O telhado era em telha de canudo com a característica cor de tijolo. No interior, o chão era em lajes de pedra não polida, coberto de espessos tapetes persas. O tecto da sala principal era todo em vidro e ficava a sete metros de altura. Sentado num dos sofás de verga, John conseguia ver, lá muito em cima, o vigamento de madeira que sustentava o telhado. Este devia ter uma clarabóia, pois a luz do sol que enchia a sala vinha também de cima, não apenas das janelas. A toda a volta, corria um varandim de madeira que ladeava uma mezzanine de acesso aos quartos. Nas paredes, em vez de Picassos e Rembrandts, como seria de esperar, estavam reproduções ampliadas de desenhos de criança. Tinham no entanto um encanto muito especial.
Mas John sabia que o aspecto simples e despretensioso da casa era totalmente enganador. Na realidade, quando chegara ao portão da herdade, deparara com uma câmara que acompanhou o carro nos últimos metros.
— John Powers?
Perguntara uma voz, ainda antes de John tocar à campainha.
— Sim, sou eu.
— Por favor, encoste o indicador direito ao leitor.
John obedeceu, pensando lá para com ele onde é que tinham desencantado as suas impressões digitais.
— Conferem — disse a voz. — O portão vai abrir-se. Siga sempre em frente até à casa grande, sem ultrapassar as trinta milhas por hora. São cerca de dez minutos. Não precisa de tocar à porta, pois está aberta. Entre e sente-se na sala.
Era então verdade o que diziam. Pelo menos assim parecia. Em casa, Peter Frampton não tinha empregados permanentes, com excepção da secretária, de quem se dizia ser amante. Mas se o povo, com a sua imensa má-língua, afirmasse o contrário, é que John se admiraria. De qualquer forma, o homem era viúvo. Estava no pleno direito de ter as amantes que quisesse.
Quando o gigante negro entrou na sala, John não pôde deixar de sentir o forte impacto daquela personalidade magnética. Como o milionário nunca aparecia em público, o jovem repórter só o conhecia de algumas fotografias de papparazi. E apesar de não se considerar facilmente impressionável, não pôde deixar de reconhecer para consigo que a entrada de Peter o perturbara momentaneamente.
Com perto de dois metros de altura, e uma impressionante largura de ombros, tinha uma formidável compleição física, que já lhe tinha valido a alcunha de «Bom Gigante». No entanto, quem esperasse encontrar um gigante pachorrento enganava-se redondamente. Extremamente dinâmico e capaz de um ritmo de trabalho elevadíssimo, era muito difícil de acompanhar. Tinha fama de trabalhar normalmente dezasseis a dezoito horas por dia, sem denotar o mínimo cansaço.
— É então você o famoso John Powers. O único jornalista que vale a pena ver!
— Sou, e você o famoso Peter Frampton. O único milionário que vale a pena entrevistar.
— Ah, ah, oh homem, você é cá dos meus. Não perde tempo, e vai direito ao assunto.
— Meu caro amigo, você faz praticamente sozinho a gestão de um dos maiores grupos industriais do mundo. Já para não falar deste rancho. Como tal, não pode, com toda a certeza, perder tempo. Mas já agora, diga-me uma coisa, só por curiosidade. Onde é que desencantou as minhas impressões digitais? Que eu saiba, isso é ilegal.
— Seria, se estivessem guardadas no meu computador.
— Mas então, como é que a máquina as conferiu?
— É simples, o meu sistema enviou-as para o centro de identificação do FBI e a máquina deles enviou-me o seu nome e fotografia.
— Bolas, que esta casa é tão segura como o Banco da Reserva Federal.
— Na verdade é bastante mais segura. Não se lembra do Assalto em Nova Iorque? Aqui tem a bebida — disse Peter estendendo-lhe um Johnnie Walker com gelo.
— Já vi que também gosta de filmes antigos de acção. De qualquer forma, tudo isto não é um bocado exagerado? E já agora, como é que sabia qual a minha bebida preferida? Não me diga que também foi o computador do FBI que lho disse...
— O FBI não tem essa informação. Ainda se fosse a marca da sua roupa interior… Foi fácil, tenho alguns contactos na CNN e gosto sempre de me informar sobre as pessoas com quem vou falar. Quanto à casa, sabe, eu em tempos não me preocupava mesmo nada com segurança. Mas depois do rapto da minha filha…
— O quê, a sua filha foi raptada?! Mas ninguém soube de nada.
— Pois não, porque eu calei-me e paguei os vinte milhões de dólares que os raptores exigiam. Mas prometa-me que não divulga nada. Sabe-se lá a quantidade de tarados que poderiam ficar com ideias.
— Compreendo, fique descansado. Mas voltemos ao que me trouxe cá. A entrevista que eu lhe quero fazer…
— Sabe, eu gosto de si. Gosto mesmo. E raramente me engano sobre as pessoas. Mas, diga-me uma coisa: você sabe que eu nunca dei uma entrevista. Porque é que hei-de abrir uma excepção para si?
— Porque os meus motivos são muito importantes.
— Ah sim, muito importantes porquê? O mundo vai acabar no fim do ano? Vamos ser atacados por marcianos? Já sei, descobriram finalmente um político honesto… Meu filho, aprenda uma coisa: não são as falinhas mansas de um jovem simpático que me levam a quebrar os meus princípios.
— Deixe-se de sarcasmos e ouça-me com atenção. O assunto é sério. É mesmo crucial para o nosso país.
— Ok, peço perdão a V.Exa. e sou todo ouvidos. — Frampton estava espantado com o arrojo e irreverência de Powers, mas a situação era francamente divertida.
— Assim está melhor. Bom, você sabe que a 31.ª Emenda vai ser votada em breve no Congresso.
— Sei, esses safados hipócritas! Querem considerar a nicotina uma droga ilegal e proibir de vez o tabaco. Desta vez foram longe de mais. Já não bastavam todas as outras leis repressivas sobre os fumadores. Não senhor, eles não estavam contentes. Já agora proíbam também o sexo e o álcool. Isto está bonito...
— Eu sei que a coisa está feia, mas nem tudo está perdido. Temos de tentar impedir por todos os meios que essa lei passe no Congresso. E uma entrevista consigo, em directo para todo o mundo, ia ajudar bastante. Podia desmontar alguns argumentos falaciosos e esclarecer a opinião pública.
— Olhe, por esses motivos, eu até lhe dava a entrevista. Mas você sabe perfeitamente que sou parte interessada neste processo. Como tal, não me posso envolver publicamente no assunto.
— Parte interessada... não estou a ver... ah, já sei, a «Máquina de Fumar» do Quental.
— Sim, o maluco do português. Como você sabe, se a lei for para a frente, perco muitos milhões. Sendo assim, ao tomar partido contra a mesma, iria parecer estar a defender apenas interesses económicos, e não o direito, aliás, totalmente legítimo, dos fumadores se matarem em paz…
— Eh, alto lá, que eu também sou fumador e não acho que me esteja a matar. Aliás, se viver menos uns anos, qual é o problema? Nessa altura já estarei velho de mais para gozar a vida.
— Oh meu caro amigo! Nunca se é demasiado velho para gozar a vida. Além do mais, e se lhe dá um enfarte ou uma trombose aos cinquenta? Até pode sobreviver, mas a sua qualidade de vida desce para baixo de zero. Deixa à mesma de fumar, mas pelas piores razões. E depois, como não há botão para desligar, tem de viver mesmo assim. Isto sem mencionar o cancro do pulmão ou o enfisema, que o matam logo e pronto. Fica o caso arrumado.
— Eh pá, você sabe mesmo como animar um fumador. — John estava visivelmente incomodado.
— Não se esqueça que também fumei durante vinte anos. E sempre tive o mesmo tipo de argumentos falaciosos comuns a todos os fumadores. Até que um médico meu amigo os rebateu um por um, sem deixar nada a que me agarrar. «Fumar é um acto estúpido. O fumador não sabe se por causa do fumo vai viver menos anos, mas de uma coisa pode ter a certeza: mesmo sem ter nenhuma doença grave, vai de certeza viver pior.» Com esta frase, arrumou-me completamente. Nesse dia fumei o meu último cigarro. É que, repare, é nos últimos anos da nossa vida, já fracos e sem genica, que ter saúde se torna mais importante.
— Realmente, nunca tinha encarado a questão desse ângulo. Mas de qualquer forma, ainda sou muito novo para me preocupar. Além do mais, se parasse agora era o mesmo que dar razão aos proibicionistas.
— Desculpe, mas não concordo. Ninguém põe em causa que o tabaco faz mal. Não é por você deixar de fumar que vai concordar com a proibição total do tabaco. Estará apenas a cuidar da saúde.
— Está bem, pronto, tem razão. No fundo é apenas falta de vontade. E medo de falhar, também.
— Ok, a vida é sua, mas agora vamos ao que interessa. Precisamos de um plano para evitar que essa maldita lei vá para a frente. Só tenho pena de não lhe poder dar a tal entrevista.
— Só por causa da «Máquina de Fumar»? Peter, acha que as pessoas não sabem que o dinheiro para si deixou de contar? Para que é que um dos homens mais ricos do mundo precisa de mais dinheiro? Só pelo gozo de o amontoar?
— O que você diz faz sentido, para mim e para si. Mas muita gente não vê as coisas por esse prisma. Pensam que quanto mais se tem mais se quer, nem que seja por uma questão de poder. Não vê que até há quem diga que eu só criei a fundação para melhor controlar as riquezas naturais dos países do terceiro mundo?
— Lá isso é verdade, mas tive outra ideia. E se você garantisse que se a lei não fosse aprovada doaria, digamos, cinquenta por cento dos seus lucros com a máquina do Quental nos Estados Unidos para programas de combate ao tabagismo?
— Isso é uma excelente ideia. E como a minha outra metade dos lucros já está a ser entregue à fundação, deixo definitivamente de ser parte interessada.
— Magnífico! Finalmente começo a ver uma luz ao fundo do túnel. E não é a de um comboio... Já agora, Peter, a fundação tem feito um excelente trabalho de ajuda aos países mais pobres.
— Obrigado. Só tenho pena de não poder intervir como deve ser nos países em guerra.
— Sim, mas fazem o que podem e já não é pouco. Outra coisa, Peter: como é que descobriu o Quental?
— Foi numa visita que fiz a Lisboa. Encontrei-o num café, bêbedo e desesperado, prestes a queimar os planos da máquina. Foi um golpe de sorte incrível.
— Pois foi. Entre a máquina e todas as outras invenções, o Quental já lhe deu muito dinheiro a ganhar.
— Sim, mas nem tudo são rosas. O homem tem dez ou doze ideias novas por semana, mas nem todas são boas. O que vale é que ele tem o bom senso de mas enviar por email, para eu me pronunciar.
— Quer dizer que você faz uma primeira triagem?
— Pois, ainda antes de gastarmos tempo e dinheiro em estudos de viabilidade. Mas às vezes não é fácil. O gajo é muito casmurro e nem sempre consigo demovê-lo.
— Então ele às vezes avança, apesar dos seus conselhos?
— Sim, e eu, por uma questão de solidariedade, avanço com ele. Mas invariavelmente é dinheiro deitado à rua. Portanto, se o Quental já me deu muito dinheiro a ganhar, eu também já lhe poupei muita massa.
— Estou a ver, mas olhe, eu ficava aqui à conversa consigo até amanhã, só que nos estamos a desviar do primeiro assunto que cá me trouxe.
— Quanto à entrevista, pode contar com ela.
— Óptimo! Quando é que tem disponibilidade? — perguntou John.
— Para uma coisa dessas, arranjo sempre tempo. Quanto mais depressa for para o ar, melhor… já agora, isto devia ser feito em horário nobre.
— Claro, claro. A primeira entrevista de sempre, do milionário mais carismático e misterioso do mundo, vai, de certeza absoluta, bater todos os recordes de audiência. Ainda por cima sobre um tema tão controverso como a ilegalização ou não do tabaco.
— Óptimo, então vamos fazer assim: peça ao seu chefe que nos marque a entrevista o mais cedo possível. De preferência num sábado à noite. Depois faça um primeiro esboço dos temas que vamos focar e das perguntas que vai fazer e envie-mo por email.
— Desculpe, mas as perguntas não posso enviar. Nunca as forneço aos meus entrevistados. Não posso abrir uma excepção para si.
— Compreendo. Se esse é o seu modo de trabalhar, não faria sentido abrir uma excepção.
— Entretanto tive outra ideia. E se aproveitássemos a entrevista para anunciar ao mundo a decisão de doar todos os lucros da máquina do Quental?
— Mais um «furo» para John Powers, não é assim?
— Bom, faz-se o que se pode.
— Pois é, mas olhe, eu acho que uma conferência de imprensa com toda a comunicação social e em directo para todas as cadeias de televisão, incluindo as da Intervisão, teria mais impacto.
— Paciência, não me pode censurar por tentar…
— Claro que não, ninguém o está a censurar. Mas entende o meu ponto de vista, não é?
— Sim, sim. Não há problema nenhum. Olhe, eu vou então tratar de tudo e assim que tiver novidades, recebe um mail meu. Agora é melhor ir, porque a viagem é longa e o meu avião parte dentro de uma hora.
— Ouça, porque é que não fica por cá até amanhã? Assim teria oportunidade de lhe mostrar o rancho e poderíamos sempre discutir mais um pouco o esquema da entrevista.
— Pode ter a certeza que nada me daria mais prazer. Mas tenho esta semana totalmente preenchida com compromissos inadiáveis. Fica para a próxima, está bem?
— Ok, mas nesse caso faço questão que passe cá um fim-de-semana prolongado. E claro, a sua namorada está também convidada.
— Está combinado. A Mary vai adorar conhecê-lo. Bom, desta vez é que tem de ser. Até à próxima, Peter, foi um prazer.
— Igualmente, obrigado. Então boa viagem, John.
E os dois homens trocaram um aperto de mão firme e caloroso. Nesse instante, tinham ambos a certeza que acabara de nascer não só uma boa amizade, mas também uma formidável parceria na luta contra a intolerância e tacanhez de espírito dos proibicionistas.