quarta-feira, julho 16, 2008

Breve história de Júlio Quental


A história que vos vou contar, teve início no Ano da Graça de 1988, com o nascimento de Júlio Quental. Homem extraordinário, viria a marcar, de forma indelével, o futuro do seu país. Excêntrico para alguns, louco varrido para outros, brilhante inventor para todo o mundo, a si próprio, intitulava-se de idiota, pois as ideias brotavam-lhe da mente a toda a hora, numa nascente inesgotável de água fresca e límpida, capaz de matar a sede a incontáveis exércitos.
Nascido no Alentejo mais profundo, cedo veio para Lisboa, onde passou a meninice. Ainda criança, já demonstrava curiosidade insaciável, desmontando todas as máquinas ou brinquedos que apanhava à mão, peça por peça. De seguida, estudava longamente todos os mecanismos, só se dando por satisfeito quando compreendia o funcionamento ao pormenor. Depois, voltava a montar tudo na perfeição, não sem antes ter desenhado num bloco vários esquemas para possíveis melhorias do objecto em questão. Nenhuma máquina lá de casa ficou por estudar. Relógios de parede, torradeiras, ferros de engomar, varinhas mágicas, até o aspirador, nada escapava ao pequeno Júlio. A mãe não se importava, pois ele nunca estragava nada. Pelo contrário, por várias vezes arranjou avarias em pequenos electrodomésticos que, de outro modo, teriam ido para o lixo, vítimas da voragem consumista da época. Solitário por natureza, passava tardes inteiras nestas actividades, sem ligar às brincadeiras habituais dos miúdos lá do bairro.
Seus pais tinham uma mercearia fina nas Portas de Benfica. O negócio era fraco, por mor dos hipermercados, mas como o Julinho era excelente aluno, fizeram todos os sacrifícios para o manter a estudar. E o Julinho não os desapontou. Sempre o primeiro da turma até ao 12º ano, entrou no ISEL com distinção. Os pais preferiam o Técnico, mas Quental gostou mais do ambiente dinâmico, descontraído e despretensioso, do Instituto de Cabo Ruivo. Além do mais, irritava-o a forma superior como os engenheiros do Técnico olhavam os do ISEL, tecnicamente tão bons ou melhores que eles.
E foi então que começaram os problemas. Irreverente e indisciplinado, apesar de brilhante, conhecia a fundo as matérias, não se coibindo de corrigir os professores, quando entendia que estavam errados. Pouco diplomata, nem sempre o fazia da melhor forma. Ainda por cima, tinha muitas vezes razão. Escusado será dizer, que a sua popularidade entre o corpo docente não era das melhores. Rotulado, com alguma razão, de arrogante e desorganizado, foi alvo de várias queixas e processos disciplinares por falta de respeito aos professores. Ainda assim, teria terminado o curso sem dificuldade, se não fosse a “Máquina de Fumar”. Fumador inveterado, teve essa ideia no início do quarto ano, e, radical como sempre, largou tudo para se dedicar ao projecto. Só que as coisas complicaram-se. Quando percebeu que a máquina não era viável, devido ao alto consumo de energia, ficou furioso por não o ter previsto, mas não teve outro remédio senão voltar aos estudos e terminar o curso. No entanto, nunca esqueceu a invenção falhada. Jurou a si próprio não descansar enquanto não tivesse resolvido o problema.
Mal acabou o curso, e apesar de ter várias propostas de emprego, Quental dedicou-se a fundo à resolução dos problemas da “Máquina de Fumar”. Como no mercado não existia nenhuma bateria capaz de alimentar o original aparelho, resolveu inventar uma. Estudou ao pormenor a tecnologia das células de hidrogénio e, em poucos meses, concebeu uma bateria adequada às necessidades. Exultante, apressou-se a patentear os dois inventos, convencido que facilmente arranjaria investidores interessados no fabrico industrial da máquina. Mas depressa se apercebeu da sua ingenuidade. Todos os investidores privados com quem falou, disseram maravilhas do invento, mas arranjaram sempre uma desculpa para não avançar. Falta de liquidez, incerteza na viabilidade comercial da máquina, dúvidas técnicas sobre se alguma vez a máquina funcionaria correctamente, tudo serviu como pretexto para não financiarem o projecto. Quanto aos organismos estatais, e apesar dos constantes elogios tecidos pelos governantes à inovação, todos se recusaram a subsidiar o projecto.
- Bem vê, se ao menos tivesse um protótipo a funcionar… o caso mudava logo de figura. – Era a frase mais ouvida nessas entrevistas. Só que Júlio não tinha dinheiro. Nem para mandar cantar um cego zarolho, quanto mais para construir um protótipo.
Por fim, desesperado e falido, demasiado orgulhoso para pedir ajuda aos pais, tomou uma decisão radical. À saída de mais uma reunião improfícua, cansado de levar negas a torto e a direito, com desculpas esfarrapadas a acompanhar, decidiu queimar os planos da máquina que tantos problemas lhe trouxera, e arranjar emprego, certo e decente, que lhe permitisse viver condignamente, sem ter de se sujeitar à caridade paterna.

Sem comentários: